Kuvale
Das estepes áridas e das transumâncias labirínticas, as imagens de um pastorDocs, no kuduro
Depois de muita publicidade, sai-nos o invólucro melhor do que o conteúdo. O último filme de Kiluanje Liberdade “Luanda, Fábrica da Música” é uma decepção. Provavelmente alguém com alguma falta de critérios na área ou com uma excessiva dose de paternalismo, terá perdido a oportunidade em proporcionar a Kiluanje um período de auto-reflexão madura sobre o trabalho que vem vindo a fazer.
Este “Luanda, Fábrica da Música” é declaradamente o pior da trilogia que vêm se centrando numa “cultura juvenil Angolana”, localizada numa espécie de limbo que pende constantemente entre a integração social e o apocalipse.
O filme “Luanda, Fábrica da Música”, pode ser considerado, tal como os outros, o resultado de uma inconsciente intenção de retratar o colapso da sociedade angolana. Nisto teria algum mérito se não fosse tão falto de argumentos didácticos.
Tudo o que o filme poderá reclamar representar está seriamente comprometido pela excessiva adjectivação da realidade, o que a desloca do seu próprio contexto. E nesta realidade amplificada e recortada também existe uma gritante falta de profundidade espacial e de devida relevância da relação entre sincronia e diacronia dos factos (re)apresentados. Mas tudo isso são só aspectos subordinados. No fundo, falamos mesmo é de pouco trabalho de casa.
Angola, entre a alienação e a infantilidade
Um presidente ilegal, Juízes empresários no activo, ministros súbditos de um governo arbitrário…, ninguém mandatado senão pelo presidente ilegal.
Um banco nacional esvaziado por uma empresa pública cujo director, quando não mafioso, parece um primeiro ministro, mais do que o oficial que por sua vez é um títere sob à vontade do chefe no partido que também é o presidente ilegal.
Um parlamento, único órgão mandatado pelo povo, mas aprisionado, instrumentalizado, alienado e infantilizado pelos interesses do presidente ilegal.
Um presidente ilegal que açambarca a vontade popular através dos instrumentos indirectos do seu poder para aumentar ainda mais o seu poder, ilegal, e assim tornar refém um povo.
É uma vergonha!
Do Público, fica o registo da excessiva falta de zelo profissional e desrespeito pelos leitores. Acho que uma nota que se supõe ser noticiosa também deva ser informativa e esclarecedora. Esta peça, aos estudantes de jornalismo, deve servir de exemplo para como não se escrever uma notícia. Ver aqui.
A miséria é o exercício da pedagogia do poder
O desprezo pelos direitos humanos é bem um indicador disso; As últimas revelações dos dados referentes ao Índice de Gini, também. Salvaguarda-se a existência da pobreza extrema na sua sórdida proximidade com a riqueza.
Faz-se uso inteligente desta pobreza extrema; Deixa-se que ela se pavoneia livremente nas rotinas diárias, que se estrebuche e agonize diante dos nossos olhos ou ainda que se introduza nas nossas casas sob um qualquer disfarce de solícita parceria nas lides domesticas.
Essa pobreza extrema persegue-nos; é um recurso em permanente uso; como um retardado sino pavloviano. Essa pobreza extrema é usada como um subtil exercício pedagógico do poder .
A exibição circense dessa pobreza extrema não é tão polissémica quanto se pode pensar. A lição é clara. Prova disso é que nós, qual cães esfomeados, respondemos reflexivamente ao estímulo para fazermos parte deste banquete dos tempos das oportunidades únicas: largamo-nos a correr atrás dos negócios do lucro fácil, do tráfico de influência, do nepotismo e da corrupção.
Isso dá-se assim porque no fundo aprendemos a lição. Aprendizagem essa que é a nossa reacção à pobreza extrema. A lição faz-nos lembrar que a fronteira que nos separa dela é, na melhor das hipóteses, ténue; e o que nos mantém à salvo é efectivamente as nossas reacções primárias ao estímulo (pobreza extrema), isso é: o largamo-nos a correr atrás dos negócios do lucro fácil, do tráfico de influência, do nepotismo e da corrupção.
A politica do caos
Ainda não se percebeu o que vem perturbando as direcções das empresas públicas no ramo da comunicação social em Angola.
O que se sabe é que, há menos de dois anos volvidos sobre a renovação das direcções dos órgãos de informação do Estado (Televisão Pública de Angola, Jornal de Angola e Rádio Nacional de Angola), se decidiu lançar a confusão sobre as respectivas direcções para de seguida criarem-se comissões de reestruturação.
Nada se sabe acerca das disposições legais que deveriam suportar a criação e controlo das tais comissões de reestruturação. São ilegais, portanto.
Nada se sabe, também, sobre quem, efectivamente, exerce a direcção dos órgãos de comunicação social neste momento.
Não gosto da expressão “caos controlado” mas neste contexto até a acho curial.
No caso, o caos lançado sobre as direcções das empresas públicas de comunicação social é, sem dúvida, uma interessante escala de percepção politica daqueles que realmente exercem poder em Angola.
Porque senão for assim esta confusão toda é de uma aberrante falta de propósito administrativo visto que existem disposições legais que dão forma à mais recente visão do governo sobre a orgânica a adoptar pelas empresas públicas, refiro-me à Lei 9/95 de 15 de Setembro, mais concretamente aos artigos 44º e 45º.
O Estado
Aniquilarmos o Estado é a única via para nos devolvermos a nós próprios a liberdade de nos auto-representarmos e recriar o mundo.
Luanda, cidade pós-moderna II
“Luanda continua com poeira, barulhenta e caótica. As raparigas movem-se dissolutas e os homens mordiscam indolentes planos de riqueza”. Foi assim de que descrevi ao Jota a cidade de Luanda há aproximadamente um ano durante a minha breve passagem por Angola, a caminho de Windhoek, Namíbia. Na sua insistência sobre os pormenores, continuei: “Sair a rua é importante; ainda que não se tenha nada para fazer. É importante porque se traduz num acto imprescindível de sobrevivência social: é na rua que interagimos com pessoas (o taxista, a zungueira, o guarda de um banco ou o roboteiro) que nos actualizam sobre os signos vigentes, nos introduzem na gramática burocrática contextual e também nos orientam na geometria dos percursos da nossa própria construção como indivíduos na malha social diária. Viver em Luanda é necessitar do contacto corpo a corpo, como num qualquer desporto de luta”.